Serenade of a Sailor

Momo

Pimba, 2011

 

POR Katia Abreu publicado em 23.09.2011

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Em bom português, solidão só existe uma: até encontramos, nos dicionários, a palavra solitude – mas apenas como um sinônimo, sem maiores implicações conceituais; e mesmo entre os termos sozinho e solitário não há grandes dilemas semânticos. Na língua inglesa, entretanto, as expressões "loneliness" e "solitude" tratam de estados de espírito diferentes: a primeira exprime a dor de estar só, um abandono contra a nossa vontade; a segunda é voluntária, serena e liberta de sofrimento.

Marcelo Frota navega pelo tema desde sua estreia, A Estética do Rabisco, em 2006. Com a bússola sempre mirando um folk de contornos psicodélicos, Momo (alcunha artística adotada pelo bardo) chega ao terceiro disco mais conciso e ciente de suas dores e amores. Em Serenade of a Sailor, deixa um pouco de lado o rebuscamento barroco consagrado em sua obra-prima Buscador (2008) e se entrega a canções de beleza simples e imediata. Com versos em português e inglês, Momo traduz as angústias de uma alma que, se ainda não encontrou sossego (será que isso é possível?), aceitou a solidão como condição e se livrou de rancores.

Seu canto manso está mais firme e, apesar de melancólico, é menos lamurioso do que o de seu xará Marcelo Camelo. A exemplo dele (amparado pelo Hurtmold em sua carreira solo), Frota soube se cercar de bons músicos para dar corpo a suas ideias. Chamou para o estúdio seu fiel escudeiro Caetano Malta, que além de tocar baixo e teclados, assina a produção do disco a seu lado, e o instigado Regis Damasceno, que com sua guitarra lisérgica entorpece os dedilhados delicados do violão de náilon. Além deles, o baterista Bruno Braggion e alguns outros amigos contribuíram com participações especiais: Lucas Santtana (flauta em “Solitude” e “Barco”), Domenico Lancellotti (percussão em “Shining Star” e bateria em “Blue Bird”), Jam da Silva (percussão em “O Morro”) e Max Sette (trompete em “Blue Bird” e “Serenade of a Sailor”).

As referências confessas de Momo – Nick Drake, Leonard Cohen, Fagner, Belchior, o Clube da Esquina... – continuam presentes, mas é impossível não pensar também em Gilberto Gil e sua luminosa “Preciso Aprender a Só Ser” diante da serenidade aqui encontrada. “Tenho que Seguir”, faixa que abre o disco, é uma ode a esperança: fala sobre encontrar forças no amor para seguir adiante e dá o tom do álbum. A mesma lição aparece em “My Sea”, vinda daquela voz interior que só a solidão nos faz ouvir e diz que na vida as coisas, simplesmente, acontecem e assim o marinheiro corta o mar; esta certeza reaparece na bela e carregada de efeitos tempestuosos “O Morro”. Já na marcha lânguida “O Barco”, ele assume o fracasso e pede apenas compreensão: “Eu tentei te dar o sol / Mas eu vivo a tempestade”.

Nos amores perdidos cantados ao longo do disco, há sempre um raio de luz rompendo a escuridão. Em “Blue Bird” e “Madelaine” são melodias ensolaradas que pedem perdão; o céu apagado de “Shinning Star” é iluminado pelo brilho de metalofone e teclados; na instrumental “Solitude”, a flauta traz alento ao diálogo soturno dos dedilhados de violão e guitarra; e em “Pescador” a dor de um amor em espera tenta ser entendida suavizando o dramático cello com delicada escaleta e deságua em sabedoria mundana: “A alma pesa e o corpo pede um trago para acalmar a solidão”.

Há um farol de esperança guiando Momo pelas sombras e ruínas das relações desfeitas, que o impede de cair no abismo da autocomiseração. Livre de sentimentos mesquinhos de possessão, ele deixou que as marés da vida conduzissem sua solidão do sofrimento a plenitude, numa obra de beleza universal. Em português ou inglês, estar só é uma condição humana; e aceitar que a vida só é torna o percurso mais suave.

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 momo, serenade of a sailor

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