Anitta . Show das Poderosas

Barra Music, 2 de maio de 2013

POR Carol Althaller publicado em 03.05.2013

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22h de uma quinta-feira triste. Liga Caio Braz: “PRE PARA, bebê! A gente tá indo pro show da Anitta!” E isso é o que me apaixona no Rio, me falta em São Paulo: a gente explora a cidade cada vez mais. Semana passada fui de trem até Madureira. Subo o Vidigal, bebo na padaria da Barra, vou no samba no Centro da cidade. O destino ontem era o Barra Music, R$ 50 de táxi da Gávea até a Gardênia.

O tamanho do BM, como é conhecida a casa de shows, assusta. Minha primeira vez no espaço, camarotes lotados, pista cheia, cabem ali umas 6 mil pessoas. A lotação não tá esgotada, mas o número é grande pra um dia de semana. Um pouco depois do horário previsto, começa o show das Poderosas. Anitta, que na verdade é Larissa de Macedo Machado, 20 anos, nascida no subúrbio de Honório Gurgel, chega carregada numa cadeira no alto. O figurino não fugia muito do que as minhas amigas usavam no Baixo Gávea naquela mesma noite, hot pants preta e um top cropped. Ela pode. Depois de frases de efeito que conquistam o público, a cantora convoca o exército e dá início ao baile.

Anitta tem voz, dança que é uma beleza, tem uma banda com oito integrantes, trio de metais no palco e um corpo de baile de 20 dançarinos. Ganha a plateia em minutos, agradecendo no final de cada música com um vocabulário recheado de gírias comuns nas conversas com meus amigos gays e fashionistas. Seu estilo não é nada “nem”, gíria carioca para as lindas da favela. Depois de duas ou três músicas menos conhecidas, ela emenda um medley de sucessos que mistura Lulu Santos, Mr. Catra, Kelly Key e Tim Maia. Achei que Anitta tinha um quê de Sandy, e não demorou muito para ela lançar alguns sucessos antigos de Sandy & Junior, que todo mundo (ainda) sabia cantar. Depois disso, teve tempo pra Rihanna, Flora Matos (!), Jorge Ben, Katy Perry, Claudia Leitte e Los Hermanos, sucesso absoluto no coro do BM. Fiquei encantada como ela conseguia mesclar tantas referências, antigas e novas, e estilos.

Com a plateia dominada, a casa veio abaixo na parte do set dedicada ao novo funk: MC Beyonce, MC Federado e os Leleks, Bonde das Maravilhas, MC Bola. E ela, de fato, só comprova que é mesmo top, capa de revista, como canta Bola em “Ela não anda, ela desfila.” A música, aliás, poderia ter sido inspirada em Anitta. Estilosa, a MC arrasa no look e rouba a cena aonde quer que vá. Na plateia, as patricinhas, as barrenses, as suburbanas, todas fãs da cantora, dançavam até o chão e cantavam com ela todas as letras. Anitta simplesmente nos representa. É funk, mas é poderosa, fala mal dos homens de um jeito sincero, é meiga e abusada, como diz uma das suas letras. Quer mostrar para as meninas que elas têm que se respeitar: “As meninas estão cada vez mais sem limites e eu acho que toda diversão tem que ter respeito. Elas têm que se valorizar e eu tento passar isso ao máximo”, disse em entrevista ao site da sua gravadora, a Warner.



Anitta resgata nas suas letras o funk antigo, menos agressivo, e o mistura com a vibe escancarada dos dias de hoje. É isso que conquista. Seu nome foi inspirado na minissérie da Globo, estrelado por uma Mel Lisboa que caiu no gosto do público por ser “sexy sem ser vulgar”. Anitta é exatamente isso, mesmo quando volta ao palco com figurino meio Lara Croft, pra cantar seu novo sucesso. Ela avisa que “Tá na Mira”, sua música de trabalho, “já tá no iTunes pra todo mundo comprar, assim eu fico rica logo!”.

Uma hora e alguma coisa de show depois, fico pensando como é que Anitta consegue misturar tão bem as referências da cultura de massa, antes negadas por nós, do asfalto. Num intercâmbio cultural, no momento do já tão discutido “empoderamento da classe C”, cada vez mais poderosa, tem espaço de sobra pro funk ostentação paulistano, o sertanejo de luxo e uma MC que dirige seus próprios clipes, que poderiam ser confundidos com vídeos de divas como Rihanna ou Beyoncé. O Brasil, a meu ver, finalmente começa a aceitar e reconhecer a mistura do seu caldeirão cultural.

Triste, penso eu, é ainda essa mania que alguns seguem cultivando de criticar tudo que é produto da nossa cultura. O último clipe de Anitta tem comentários grosseiros sobre o seu estilo ser cópia dessas grandes estrelas internacionais. Certamente essas pessoas ignoram que essas estrelas também se copiam, e copiam estrelas do passado.


Foto por Carol Althaller

Voltando à classe C, poderosa, vejo a classe A no caminho inverso: se o desejo de uma vida simples já é antigo, o comportamento que começo a perceber agora é uma negação dessa ostentação, que sempre nos foi tão característica. Deixa de ser cool pagar caro pra jantar, comprar roupa de marca e se conformar com os preços surreais do Brasil.

BM, quase 3 da manhã: Anitta termina o Show das Poderosas repetindo sua música mais famosa. Um amigo gringo, que provavelmente não conhecia metade dos hits brasileiros das últimas décadas que a cantora interpretou tão bem, me lembra que esteve ali anteriormente pra assistir o fenômeno Naldo. “Ele cantou a mesma música 4 vezes. Ela dominou o público, dá de 10 nele.”

É, Anitta está, de fato, podendo.

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 vidigal, barra music, anitta

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