Sintetizadores
penetrantes, samples atmosféricos e um coro atípico de sapos
envolto por um clamor de vozes tribais. Durante os sete minutos de
"Depak Ine", faixa inicial do primeiro álbum de John Talabot,
sonoridades aparentemente díspares se reúnem para criar uma trilha
sonora de imersão: cada novo som remete a um desejo idílico de
encontrar a totalidade, de fazer parte de um organismo só. Em meio a
cânticos primitivos, vocais distorcidos e uma mistura incisiva de
house, disco, balearic, sons tribais, baixos BPMs de pura hipnose, o produtor e DJ espanhol cria uma nova
maneira de contar suas histórias em fIN, lançado pelo selo
Permanent Vacation.
A carreira de Talabot
começou em meados de 2000 com elementos do techno, uso pesado de
sintetizadores e influências de selos como B Pitch Control, Sound
Signature e KDJ (de Moodyman). Além disso, o catalão se inspirou
nos hits do northern soul e em ritmos africanos para começar a criar
um ritmo próprio, que consegue unir house, balearic, disco, grooves
sincopados, experimentações drone e até mesmo prog. Segundo ele,
singles celebrados como "Sunshine" e "Matilda's Dream", ambos lançados
em 2010, trazem a elevação espiritual do transe por meio de
repetições e texturas hipnóticas. Sem recorrer a sonoridades mais
óbvias ou estereótipos da música africana, Talabot criou em
"Sunshine" uma ode repleta de cânticos e ritualismo, trazendo
influências do funk e da house music e transformando sete minutos de
repetições 4x4 em uma força da natureza.
É essa capacidade de
harmonizar sonoridades díspares e transformá-las em um ritual
xamânico a grande força de fIN. Desde o lançamento de Swim, do
Caribou, a música eletrônica não trazia um álbum tão
declaradamente sinestésico, sensorial e espiritual - de "Depak Ine" a
"Missing You" e "El Oeste", quase todas as canções remetem a orações
primitivas, a maneiras de se unir com a natureza, com um oceano de
sons, sensações e significados.
Em entrevistas
recentes, John Talabot se mostrou surpreso com críticas que
classificavam seu álbum como alegre - ou, pior, tropical. “Não
consigo entender essas interpretações. Todas as minhas músicas são
sombrias ou trazem consigo algum senso de perigo. Por meio da
repetição, eu quero transformar pequenas variações em momentos de
imersão musical. Nunca imaginei algo 'solar', 'tropical'”, afirmou
ele. Justiça seja feita, em uma primeira audição é fácil
imaginar algumas faixas como trilhas sonoras para uma festa de verão
na praia, ainda mais com a escolha de samples exultantes e texturas
sinestésicas típicas de Talabot. Com o tempo, entretanto, fIN se
releva exatamente o contrário: seus momentos de beleza estética e
glórias atmosféricas embebidas em IDM e balearic não chamam pelo
sol, e sim por um ideal ritualístico mais conflituoso e menos óbvio.
O senso de perigo citado pelo músico é visível em faixas mais
agressivas como "Oro y Sangre" e "Missing You", com seus vocais
desmanchados que se unem aos demais elementos sonoros e transformam
melodias plácidas em elegias ao lado mais traiçoeiro da natureza.
Toda essa atmosfera
tribal e repleta de texturas orgânicas, entretanto, não teria
resultado em nada se Talabot não tivesse adquirido uma
característica essencial: a capacidade de criar melodias
contagiantes e que dialogam a pista e com o pop de maneira coesa. O
início do álbum explicita bem esse equilíbrio, com o duo entre
"Destiny" e "El Oeste". Em "Destiny", um hino de vocais harmonizados vai
crescendo aos poucos, em uma melodia sintetizada e que rapidamente se
transforma em coro de pista, com a repetição suave de "destiny, destiny, destiny" - similar ao hit "Sun", do Caribou. Logo em seguida,
"El Oeste" transmuta um loop de sintetizadores sombrios em um house exultante e delicado.
A sensação de
regredir a estados mais elementares da natureza e do ritualismo
tribal em uma atmosfera de sinestesia e hedonismo é apenas uma
definição para fIN, que marca John Talabot como um produtor ousado
e dono de um dos álbuns mais interessantes dos últimos tempos. E
2012 acabou de começar.