Parallax

Atlas Sound

4AD, 2011

 

POR Eduardo Yukio Araujo publicado em 21.11.2011

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Bradford Cox é um compositor que define muito bem a contemporaneidade do pop. Talvez a definição seja pertinente porque Bradford trabalha de forma quase incansável  – são cinco álbuns com sua banda, o Deerhunter, e três com seu trabalho solo, o Atlas Sound – mas não apenas por isso. Como músico, o norte-americano é um curioso experimentador de sonoridades, operando softwares ou destilando timbres improváveis em sua guitarra. Apesar de tal volume de lançamentos e voracidade criativa, a consistência de seus discos faz com que seja possível imaginar alguém profundamente meticuloso. Algo que é negado pelo cantor, especialmente quando opera sob o nome de Atlas Sound. Afirmando possuir centenas de gravações – algumas foram liberadas em 2010 para download gratuito, em quatro volumes chamados de Bedroom Databank –, Cox atribui suas criações a fluxos de consciência, pedaços que se unem, como um quarto bagunçado e cheio de informações.

O recém-lançado Parallax é mais um indício do talento do músico para induzir o ouvinte a perceber diferentes aspectos do som em audições repetidas. Se em Let the Blind Lead Those who Can See but Cannot Feel (2008) e Logos(2009) as pequenas partes eletrônicas e intervenções instrumentais soavam verdadeiramente soltas, em momentos de lucidez ocasionais, Parallax é uma unidade fechada e bem definida, sem que os elementos que chamaram a atenção nos dois primeiros discos tenham sido reduzidos. É claramente um trabalho mais pop, algo que só realça a habilidade de Bradford em orquestrar referências e ruídos menos comuns com o apelo da música acessível.

“The Shakes” abre o álbum de forma gloriosa com sua alternância de violões e guitarras elétricas, condução vocal firme e pequenos efeitos, como um hit onírico em um universo alternativo. Os ecos insistentes em “Amplifiers”, essencialmente acústica e de percussão bem marcada chamam a atenção tanto quanto as quebras melódicas da canção. Somente em “Te Amo” é que a profusão de ambientações se torna escancarada: uma cascata de pianos, guitarras reverberando notas "encharcadas" e batidas eletrônicas contrastam com a voz limpíssima de Cox. “Parallax”, a canção, traz riffs canalizados diretamente de algum lugar dos anos cinquenta, ornada por pequenos blips blips e de final mais ruidoso, numa espécie de surf-rock cibernético. A escuridão e a melancolia estão presentes em “Modern Aquatic Songs” (como sugere o nome, a música possui aquela sensação de submersão, com os dedilhados de violão sendo distorcidos): "Seu amor vale a náusea que pode trazer?" questiona Cox. Em “Mona Lisa”, a psicodelia pastoral apazigua o clima, contando com a participação de Andrew VanWyngarden, do MGMT. De fato, a canção poderia estar presente em Congratulations, álbum de 2010 da banda de Connecticut.

Quando professa seu interesse por doo-wop, Carl Perkins ou Stereolab, Bradford exterioriza essas influências de forma tortuosa; dos grupos vocais ele enxerga harmonias potencialmente hipnóticas, timbres de guitarra de Perkins podem se transformar em efeitos dissonantes, e os velhos moogs e repetições do Stereolab se tornam ecos e reverberações dentro do universo do Atlas Sound. Há momentos em que tudo parece se estruturar de forma tão espaçada, frágil, como se o conteúdo pudesse se transformar em pó se desajustado. E de repente surge um pop perfeito à XTC como “Lightworks”, que encerra Parallax, toda repleta de ohhs-ohhs, gaita e violões crescentes. O verso final do disco: "Pra todo lugar que olho, há uma luz, e ela vai te guiar". A luz que guia Bradford Cox é um compêndio de décadas de música popular, filtradas por uma visão ousada e abordagem não-careta.

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 atlas sound, parallax

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