Uma das coisas mais empolgantes no mundo das artes é acompanhar a evolução de um jovem talento. No caso do gaúcho Viti, a trama se desenrolou em ritmo de filme de ação: um dos destaques da primeira exposição coletiva Entre (Outros), realizada no Espaço Soma em 2009, seu amadurecimento em pouco mais de um ano é evidente. Seja em termos de técnica ou de temas, os trabalhos atuais do artista apresentam um vigor atingido apenas mediante um encontro feliz entre pulso criativo e mergulho interior. Radicado em Florianópolis há cinco anos, Viti une a sensibilidade gráfica de outros colegas de geração como Carla Barth e Luciano Scherer a um olhar privilegiado para a vida comum do povo da ilha – não os estereótipos anabolizados/siliconados do turismo praiano, mas os locais, em especial os pescadores.
É esse momento que o artista passa a exibir, a partir desta terça 29, na individual Re.vo.a.da, realizada pela galeria Cor. Alternando planos de céu e mar, Viti produziu sete telas, nas quais se apropriou do feminino como elemento representativo e percorreu um mundo de fábulas, retratado em grandes dimensões. Entre um bater de asas e um mergulho, ele nos concedeu a entrevista a seguir.
Conta um pouco sobre a sua nova individual: o que e quantas obras você vai mostrar?
Re.vo.a.da é uma expo que está sendo preparada desde o começo de 2011. São sete obras no total, mais uma pequena instalação com várias pequenas pinturas de pássaros em revoada e uma projeção no teto da galeria. Pintei uma parede na lateral externa da galeria e um detalhe da fachada. Nesta série eu me apropriei de uma cor (azul esverdeado), que aparece bem forte, chapando o fundo de 90% das obras. Quem entrar na galeria vai mergulhar no azul do céu, que às vezes vira azul do mar. É esse mergulho que as obras tentam, de maneira sutil, propor. Ora as imagens estão voando, ora mergulhando no azul, sem sabermos ao certo se é céu o se é mar. Cria-se uma sensação de liberdade, mistério e introspecção.

Seu trabalho parece ter mudado bastante desde a primeira edição da coletiva Entre (Outros). Pelos poucos trabalhos novos que pude ver, deu pra perceber uma evolução grande na sua pintura, que antes era mais solta/gestual e agora está mais trabalhada, com muito mais nuances de tons e um traço mais meticuloso e preciso. O que mais mudou desde então?
É mais ou menos isso mesmo. Precisei passar por aquela fase mais gestual, totalmente intuitiva. Naquela época eu estava morando fora do Brasil, meu barco passou por umas tempestades e isto se refletia no meu trabalho. Quando as águas acalmaram, comecei a produzir com mais paciência, dando outra perspectiva ao tempo, olhando minha produção artística de uma maneira mais madura, pesquisando ainda mais, tentando aprofundar os temas etc. O reflexo foi uma precisão maior nos traços, temas mais pensados e um pouco mais de complexidade mesmo. Acho que na revoada eu consegui unir essas duas experiências de uma maneira interessante. As obras estão mais pensadas, mas sem que isso me prenda; pelo contrário, isso tá me ajudando a soltar também, um processo que mistura essas experiências e me impulsiona para um voo um pouco mais alto – ou um mergulho mais fundo?! (risos)
Por que Revoada?
Tenho uma ligação forte com os pássaros, com São 'Chico' de Assis, moro numa ilha cheia de vistas pro céu e pro mar. E vivo um momento importante na vida e no meu trabalho. Este foi o ano que eu larguei o trabalho fixo pra mergulhar no meu trabalho autoral, vou me tornar pai em alguns meses, consegui dar alguns voos importantes.
Durante as pesquisas para as pinturas, caí no significado da palavra e me fez muito sentido. Tanto que estamos usando a explicação literal do dicionário no release da expo.
Você mora em Florianópolis, mas é gaúcho, e o Rio Grande do Sul tem sido um dos berços mais ricos dessa nova arte, de raiz mais urbana e não tão presa ao academicismo das escolas de Belas Artes. Na última década o estado revelou jovens artistas como Bruno 9li, Talita Hoffman, Carla Barth, Emerson Pingarilho e Luciano Scherer, só para citar alguns. Ao que você atribui tanta gente boa saindo do RS, além do chimarrão e da bombacha? (risos)
Concordo contigo, mas não sei exatamente por quê. O Rio Grande do Sul tem uma cultura muito forte, bastante politizada e de personalidade. Nasci em Porto Alegre e vivi lá por 26 anos. Me identifico com a música, com a comida, com os bares, com as pessoas... E claro que me identifico com os artistas de lá. Por outro lado, o tempo que morei na Espanha e estes quase cinco anos morando na ilha (a casinha de praia dos gaúchos) me deram um distanciamento bom, que me ajudou na busca por originalidade e a traçar meu próprio caminho. Sinto que muita gente tenta classificar ou encaixar meu trabalho em algum movimento artístico, grupo de artistas, estilo... E sei que isso é normal e, por vezes, necessário. Mas minha busca é cada vez mais pra dentro de mim e um pouco pras coisas de perto. Sem esquecer de ser gaúcho, claro!
O que morar em Floripa influenciou na sua arte e no seu dia-a-dia?
Aqui eu conheci minha mulher, formei uma família. Em Floripa eu me senti mais à vontade pra pintar na rua, meu trabalho foi bem recebido e [a cidade] me trouxe muitas experiências boas. Fico muito triste com o potencial incrível que esta ilha tem de ser um dos melhores lugares do mundo pra se viver, mas passar tão longe disso.
Aqui os horizontes se tornaram comuns. Todo dia eu vejo o mar, nem que seja de longe. O azul é muito presente. A cultura de pescadores, de contos, de um povo que vive ilhado, a calmaria, o ritmo, tudo acabou influenciando diretamente na minha vida e no meu trabalho. Por enquanto estamos por aqui. Mas temos planos de dar outras voltas pelo mundo.

Vi que nessa exposição você apostou em grandes dimensões, o que muitas vezes é um caminho natural para o crescimento e amadurecimento de muitos artistas e quase uma exigência do mercado de arte. Fale um pouco sobre isso.
Eu gosto muito de pintar em dimensões maiores. A experiência de pintar na rua também influencia. Gosto dos gestos largos e das pinceladas grandes. Sempre gostei.
Agora meu trabalho tá permitindo esse suporte. E acho que tem muito a ver com o tema desta série, que sugere dimensões de céu e de mar... Com as sensações que tento imprimir nas pinturas, mais do que qualquer exigência de mercado.
Percebi que as figuras femininas aparecem bastante nessa sua nova produção, também.
As figuras femininas sempre foram interessantes pra mim como forma. Eu sempre estudei o desenho do corpo humano, construindo e desconstruindo. Fiz muito desenho de observação. Quando criança, lembro que eu passava os verões desenhando compulsivamente, fazia uns 30 desenhos por dia. E o corpo feminino já era muito presente desde aquela época. Tinha professora que me tirava da aula por que dizia que era putaria! Sério! (risos) Nos últimos anos, pintei muitas sereias pelas ruas e em tela. Até hoje essas imagens ficaram muito marcadas, principalmente aqui em Floripa. Agora essas sereias estão se transformando em mulheres. Dando grandes pulos pra fora d'água!
Apesar da produção para a exposição você ainda consegue tempo para pintar na rua?
Nos últimos meses, pouco. Só quando rola um convite. Mas ainda passo pelos lugares sempre procurando um bom muro pra pintar. Tô com planos de pinturas maiores agora. Quem sabe depois dessa revoada...
Qual sua expectativa com essa exposição?
Tenho várias expectativas. Mais do que gostaria de ter (risos). Mas o que gostaria mesmo é que as pessoas conhecessem mais o trabalho que tenho feito atualmente, que envolve pesquisa, estudos, muito suor e trabalho... E consigam abrir novas “gavetas” no cérebro, entende? Que rolem novas perspectivas, novas conexões, que movimente! Tenho planos de levar meu trabalho pra outros lugares também, pra que mais gente possa ver de perto. E quero convidar as pessoas a mergulhar mais fundo e a voar mais alto.
Saiba mais:
www.vitiworks.com
www.flickr.com/photos/desenhosdoviti
Serviço:
Re.vo.a.da – Individual de Viti
Estreia . Terça, 29 de novembro de 2011
Horário . das 20h às 23h
Onde . COR Galeria, Rod. SC 401, n. 7584. Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis, Brasil
