Love and Rockets . Trinta anos depois

Jaime e Gilbert Hernandez falam sobre as origens da série e seus projetos futuros

POR ADRIANA TERRA
publicado em 12.12.2011 17:44  | última atualização 16.12.2011 00:34

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Se você gosta de música, de quadrinhos, ou de arte em geral, provavelmente já cruzou com alguma garota no estilo da Hopey. Ou parecida com a Maggie. As personagens criadas por Jaime Hernandez na década de 1980 traduzem bem um determinado tipo de menina que não estava apenas em Los Angeles, mas em qualquer cidade com jovens querendo se divertir e fazer as coisas à sua própria maneira.

Trinta anos depois do primeiro volume da série que tornou Hopey, Maggie, Luba e o vilarejo de Palomar conhecidos no mundo inteiro, Love and Rockets segue sendo produzida pelos irmãos Hernandez. Criados em Oxnard, uma pequena cidade de descendentes de mexicanos na Califórnia, filhos de pai mexicano e mãe texana, Mario, Jaime e Gilbert cresceram cercados por quadrinhos, influenciados pela mãe colecionadora e desenhista. Nessa época, eram viciados também em monstros, super-heróis, filmes antigos e, mais tarde, na adolescência, nos shows que frequentavam em Oxnard e nas cidades vizinhas. Aos vinte e poucos anos, resolveram colocar tudo no papel e criaram uma das mais conhecidas séries das HQs contemporâneas, com figuras femininas marcantes e narrativas que evocam o imaginário latino-americano.

“O punk foi uma grande influência, porque me libertou para fazer quadrinhos”, conta Jaime. Em 1981, saiu de forma independente o primeiro volume de Love and Rockets, publicado no ano seguinte pela Fantagraphics, editora responsável pelo lançamento do quadrinho até hoje. Jaime concentra seu trabalho nas aventuras das Locas, as jovens personagens originárias de Hoppers, enquanto Gilbert narra o dia-a-dia em Palomar (Mario se tornou um colaborador ocasional). Em ambos os casos, as influências latinas são usadas para contar histórias sobre mecânicos de foguetes, romances entre meninas, monstros na cidade, banhadoras de vila, catadores de lesmas e outras narrativas que aliam o fantástico ao real.

Nesta entrevista, compilada entre algumas boas trocas de e-mail (segundo a Fantagraphics, os irmãos às vezes mandam material para a editora por carta mesmo, então imagino que eles não sejam adeptos de bater papo pela internet), Jaime e Gilbert falam sobre as origens da série, as influências, a música que ouvem atualmente, projetos futuros – como uma história sobre uma zumbi assassina, feita por Gilbert – e contam o que conhecem da produção cultural brasileira, como Zé do Caixão e os filmes Pixote e Orfeu Negro, dois dos favoritos de Jaime.

Vocês poderiam falar um pouquinho sobre como suas origens – a vizinhança em que cresceram, a família etc. – influenciaram Love and Rockets?

Jaime Hernandez . Fui criado numa cidadezinha no sul da Califórnia, uma hora a oeste de Los Angeles, em uma vizinhança habitada em sua maioria por mexicanos e descendentes, e me lembro dos sentimentos que tinha crescendo ali, os tipos de pessoas que viviam por lá. Tento colocar esses sentimentos nos meus quadrinhos, dividi-los com o leitor, porque acredito que as histórias sejam ricas o bastante para que todos gostem.

Gilbert Hernandez . Queria fazer histórias que refletissem a experiência de ter sido criado em Oxnard, mas não queria que ficassem restritas ao autobiográfico. Por isso criei o vilarejo mítico latino-americano de Palomar, para colocar as minhas criações nos quadrinhos, misturadas com as memórias. Palomar tem minha personagem principal, a Luba, que voltará em Love and Rockets — New Stories #5 [o próximo volume da série].

Como era ser um jovem latino na Califórnia na década de 1970, com a questão das gangues etc.?

GH . Eu cresci nas décadas de 1960 e 70, mas não me envolvi com as gangues da forma como acontece hoje em dia. As gangues que todos conhecem atualmente só se tornaram dominantes no fim dos anos 70. Eu até conhecia alguns garotos dos lugares mais barra-pesada, mas nenhum deles fazia parte das gangues. Essa coisa do crime era algo para se manter distância.

JH . Eu tinha que manter separadas a minha vida na comunidade latina e a minha vida punk. O lado lowrider da minha vida, que incluía os rolês e as gangues (no meu caso evitar o envolvimento com elas), não conhecia o lado punk. Meus amigos curtiam funk e R&B. Antes de as bandas punks e toda a cena chegarem à minha cidadezinha, eu não conhecia outros punks latinos.

Sempre achei as personagens femininas da série muito fortes, representadas com muita profundidade. Como vocês trabalham esse aspecto dos seus quadrinhos?

JH . Eu tento retratar as minhas personagens femininas da maneira mais forte possível, em termos humanos. A força está na personalidade delas, e não no número de pessoas em quem elas conseguem bater. Na sociedade, Maggie é considerada uma mulher mansa, meio fraca, mas é a personagem mais forte que criei, porque usa os poucos meios que foram dados a ela para sobreviver.

GH . Gosto de desenhar mulheres sensuais. Escrevo histórias sobre elas para poder desenhá-las com a maior frequência possível.

A relação de amizade/romance entre Maggie e Hopey é mostrada de maneira leve, sem grandes tensões, mais como pura diversão mesmo. Como se estabeleceu essa relação?

JH . As garotas que conheci que são como Maggie e Hopey sempre me intrigaram por seu senso de humor e atitude desencanada. Na época que as criei, eu queria que a relação entre as duas projetasse aquele sentimento, apesar de saber que se trata de algo que pode não durar muito tempo em um relacionamento.

Love and Rockets tem trinta anos. Como é a rotina de produção da série hoje em dia? O que inspira vocês?

JH . Na maioria das vezes, me inspiro no crescimento dos meus personagens ao longo dos anos. Quero vê-los envelhecer comigo.

GH . Nunca me canso de ter ideias para o meu trabalho. Só fico travado mesmo quando tenho que encontrar um editor para fechar um projeto incompleto.

E como é conviver tanto tempo com um personagem? A Maggie, por exemplo, no caso do Jaime.

JH . Eu amo essa personagem, adoro acompanhar a trajetória dela.

Por Sopa de Gran Peña, Gilbert já foi comparado pela crítica a Gabriel García Márquez. Você chegou a ler algo do realismo mágico latino-americano? Ele foi mesmo uma influência?

GH . Na verdade, não. As histórias que misturam a vida real com elementos fantásticos têm origem simplesmente no modo como me contaram histórias quando criança. Nada de realismo mágico, apenas histórias exageradas e esse tipo de coisa.

E como os norte-americanos reagiram ao universo de Sopa de Gran Peña, que não parece muito próximo da realidade deles?

GH . Acho que consideravam uma coisa exótica, por serem histórias sobre algo que não conheciam.

Existe algum aspecto ainda não explorado da cultura dos imigrantes mexicanos que vocês pensam em usar algum dia?

GH . Nunca explorei muito o racismo, mas só porque ele nunca foi direcionado a mim o suficiente para que eu falasse a respeito.

Quadrinhos de terror, filmes B e cinema europeu antigo foram uma influência, certo? Quais elementos fascinavam vocês?

GH . Um dos aspectos mais convincentes de alguns quadrinhos, para mim, eram os temas chocantes, sensacionalistas. Horror, crime, sexo e violência eram livres para serem explorados nos quadrinhos antigos. Você vê isso em algumas HQs mais populares hoje em dia, mas muito pouco nos quadrinhos alternativos.

JH . Era apenas um ótimo meio de diversão, e eu nunca quis que meus quadrinhos não fossem divertidos.

Sobre música, o que o punk representou para vocês? Quais as primeiras bandas que ouviram?

JH . De início, ouvia Ramones e Patti Smith, isso em meados da década de 70. Depois vieram Clash e Sex Pistols. Mais tarde, comecei a sair e ver shows de bancas locais de Los Angeles como X, The Weirdos, Black Flag e The Go Go’s (sim, The Go Go’s era considerado punk, na época). Mais tarde, na minha cidadezinha apareceu um monte bandas punk, e aí começamos a fazer nossa própria música. O punk foi uma grande influência porque me libertou para fazer quadrinhos.

E o que vocês ouvem atualmente?

JH . Na maioria, coisas pré-punk da minha adolescência. Recentemente passei por uma fase de procurar coisas do período bubblegum e grupos de garotas desconhecidos da década de 60.

GH . Minha filha de 11 anos gosta de Katy Perry e Lady Gaga, então é isso o que mais ouço no momento. A nova música punk e o rock atual não são mais os mesmos. A maioria soa como rock de programas de TV infantis.

Em uma entrevista do fim da década de 80 vocês disseram que as coisas estavam melhorando para os quadrinistas autorais, porque começava a ser possível viver de sua arte. O que vocês pensam sobre essa questão hoje em dia?

JH . É muito fácil ser quadrinista fazendo um trabalho mais pessoal. Na realidade, hoje em dia na América do Norte deve existir mais gente fazendo quadrinhos autorais do que já houve em toda a história das HQs. Se eles estão conseguindo viver disso, não sei...

Também li nessa entrevista vocês falando as convenções de HQs, que reuniam gente interessada apenas em super-heróis e brindes. Isso piorou, não? Qual o motivo para isso, já que hoje há mais gente fazendo quadrinhos autorais?

JH . Sempre acreditei que – e isso vale para qualquer mídia –, por mais que surjam grandes obras, a grande maioria dos trabalhos ainda será ruim.

Sobre a parceria com a Fantagraphics, vocês acham que a série ajudou a formar a “personalidade” da editora?

JH . Acho que ajudou, sim. Gary Groth (um dos fundadores da Fantagraphics) nos contou que estava planejando sua própria linha de quadrinhos quando nos convidou para assinar com eles.

GH . A Fantagraphics era conhecida pela visão crítica a respeito dos quadrinhos contemporâneos. Quando eles publicaram a primeira edição de Love and Rockets, os críticos puderam entender o que a editora estava procurando dentro do universo dos quadrinhos.

Que quadrinistas vocês admiravam quando começaram e continuam sendo uma influência?

JH . Robert Crumb, Jack Kirby, Harry Lucey (de Archie), Owen Fitzgerald (da Disney), Bob Bolling (também de Archie)... A lista é longa.

GH . Os quadrinistas de que mais gosto são Robert Crumb, Charles Burns, Dan Clowes, Richard Sala, Chester Brown e Seth, sempre que eles estão no pique de fazer quadrinhos!

Vocês conhecem quadrinhos ou filmes do Brasil?

JH . Não muito, mas dois dos meus filmes favoritos são Orfeu Negro e Pixote. Também gosto das séries do Zé do Caixão.

GH . Mesma coisa! Cidade de Deus é ótimo, mas várias cenas são difíceis de assistir. É muita tristeza para aqueles garotos.

Pra finalizar, o que vocês estão fazendo no momento?

JH . O número quatro de Love and Rockets – New Stories acabou de sair, e já comecei a trabalhar no próximo.

GH . Também estou trabalhado em Love and Rockets – News Stories #5, acabei de terminar uma minissérie chamada Fatima: The Blood Spinners, sobre uma mulher zumbi assassina, e estou começando uma HQ chamada "Marble Season", sobre crianças que crescem lendo quadrinhos, e outra HQ chamada "Maria M.", uma ficção sobre a vinda da mãe da Luba pros Estados Unidos. Ufa!

E como será a volta da Luba, Gilbert?

GH . A história se concentra na avó da Luba, Killer, em Palomar, procurando pelo martelo da Luba. A Luba tem uma participação pequena.

Jaime, e sobre o futuro da Maggie?

JH . Tudo o que eu sei sobre o futuro da Maggie é que ela consegue dar um tempo depois de todo o drama pelo qual passou. Eu vou torturar outro personagem nesse meio tempo.

Saiba mais:
www.fantagraphics.com

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 love and rockets

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