Detalhe de uma das cabeças de lobo de Atsuo Nakagawa
POR Divulgação
Sem falar uma palavra de português, o artista japonês Atsuo Nakagawa mudou-se para uma residência de um ano no Brasil, bancando tudo das suas próprias economias, sem bolsa nem patrocínio. Na bagagem, trouxe uma parte – e terminou outra parte durante os primeiros cinco meses de Brasil – da sua exposição Eu Sou Um Lobo, que fica na galeria Choque Cultural (R. João Moura, 997), em São Paulo até este sábado (15).
Com trabalhos figurativos coloridos, com referências diretas ao universo de filmes antigos de fantasia e terror, mangás e animes e também um pouquinho de folclore mexicano, Atsuo trabalha sobre uma infinidade de materiais, de telas à trabalhos em tábuas de cortar carne, utilizando acrílica, spray, pirógrafo e realizando também, em parceria com a marca nipônica RBT, uma série de cabeças de lobo feitas em costura, penduradas como se fossem peças de taxidermia. Contando com o auxílio inestimável da também artista Yumi Takatsuka, conseguimos bater um papo com Atsuo, onde ele revela que foram as cores e os temas do graffiti paulistano que o inspiraram a tomar coragem para deixar seu trabalho mais “fofo”. Confira.
O que te trouxe ao Brasil?
Eu participei da exposição Japan Pop Show em 2008 aqui na Choque, a convite do Titi Freak, e resolvi voltar agora para estudar e pesquisar mais sobre a arte brasileira – não é um intercâmbio, usei meu próprio dinheiro para custear a viagem e a minha vida ao país. Estou aqui há cinco meses.
Você trabalha em suportes muito diversos. Como você decide que obra será feita em que suporte?
Eu não consigo imaginar exatamente o que eu vou produzir, como as imagens sairão. Eu não escolho o material antecipadamente, às vezes realizo a mesma ideia em diferentes materiais e vejo qual vai evoluindo melhor – tela, madeira, resina.
Você fez diferentes parcerias para produzir alguns materiais da exposição. Como você se sente convidando alguém a ajudar a realizar a sua arte?
Tenho que confiar muito na técnica, no trabalho de quem está realizando minhas encomendas, tenho que ter certeza que vão fazer exatamente como eu disse. Tem que ter confiança. Mas na maioria das vezes o resultado é exatamente como eu havia imaginado, ou até melhor. Para ter essa confiança, converso muito, gasto bastante tempo nesse trabalho, mas no final sempre tenho uma surpresa agradável.
Você produziu parte da exposição aqui e outra parte no Japão. Como foi a experiência?
Produzir as coisas no Brasil foi um pouco desafiador, porque o material de pintura aqui é de qualidade inferior e não tem tanta variedade. No Japão, podia comprar muitas tintas diferentes, porque é barato e há uma grande diversidade. Então me adaptei, usando o que dava, incorporando coisas que não usava, mas que eram mais baratos, como o spray. Eu uso madeira japonesa em diferentes trabalhos, por exemplo. Resolvi fazer algumas coisas com madeira aqui, e aí resolvi usar a tábua de carne – era mais barato (risos) e também é uma maneira de incorporar um objeto mais cotidiano à minha arte.

Atsuo ao lado de suas obras na Choque Cultural
O que mudou no seu trabalho no Brasil?
Meu desenho era mais próximo do grotesco. Eu sempre quis fazer algo mais colorido, kawaii (“fofo”), mas não tinha coragem. Chegando aqui eu vi vários trabalhos mais bonitinhos na rua – fiquei impressionado, e comecei a trazer isso para o meu trabalho, foi uma influência inesperada da rua e dos grafiteiros brasileiros. Os artistas brasileiros mostram muita energia, tem muita liberdade para mostrar o que sentem. Para mim é um choque, eu respeito muito isso, e acabou me influenciando um pouco.
Qual é a ideia por trás das cabeças de lobos? E as caveiras?
Essa é uma família de cabeças. Fiz elas em parceria com uma marca de roupas. Eles tinham vários tipos de tecido diferentes. Usei a primeira, gostei muito, e resolvi transformar em uma família de cabeças. Eu sempre gostei de desenhar caveiras, e também adorava o folclore em torno da cabeça, no México, e achei importante trazer isso para o meu trabalho.
Quais são as suas principais influências?
Gostava muito de filmes de terror e fantasia quando era criança – meu personagem favorito era o lobisomem, me identifico com eles, acho que têm a ver comigo. Minhas maiores influências vêm do Ray Harryhausen (animador, responsável pelos efeitos visuais de clássicos da fantasia como Jasão e o Velo de Ouro), do cinema mesmo – eu passava todo o meu tempo na escola desenhando monstros que eu via na TV.