Luzes apagadas e janelas fechadas. Sentado no chão, Dave Phillips manipula uma mesa de som à qual estão ligados cerca de cinco ou seis aparelhos de MP3 contendo ruídos de insetos e de outros elementos da natureza. De repente o espaço minúsculo do Studio Caffeine é inundado por uma torrente sonora. A maneira como o músico combina os diferentes timbres e o volume absurdamente alto fazem com que o set, chamado Field Recordings, soe como uma floresta tropical localizada no inferno. Após mais de 20 minutos, ele se levanta calmamente e distribui para a plateia um folheto falando sobre a importância dos insetos na natureza.
Depois de um breve intervalo para arrumar os equipamentos e dar uma trégua para os tímpanos do público, começa o segundo set da noite, Video Action. Enquanto imagens de tortura e matança de animais são projetadas em uma tela improvisada, Dave usa o próprio corpo (voz, batidas do coração, respiração) e alguns equipamentos para produzir e processar os sons desesperados/desesperadores que acompanham as cenas. A plateia assiste à apresentação imóvel, em estado de choque. No fim, uma mensagem aparece na tela: “A principal característica do ser humano é a capacidade de mudar. Mude”.
Dave Phillips, que começou sua carreira no grupo de grindcore Fear of God, faz protesto com ruídos. Sem cair na pregação, ele consegue passar uma mensagem clara de um modo não óbvio; escarafunchando o dedo em várias feridas sem descambar nem para o sentimentalismo barato nem para discursos apocalípticos. A +Soma aproveitou a passagem dele pelo Brasil em outubro para conversar sobre música e ativismo. Parte da entrevista foi feita pessoalmente um pouco antes da apresentação descrita acima – a última de uma série de shows em várias cidades do País – e outra parte foi feita por e-mail, quando ele já estava de volta à Suíça.
Também confira o vídeo que o Thiago Vakka, do Intervalo Banger, fez do Field Recordings.
Dave Phillips from Intervalo Banger on Vimeo.
Você se considera um artista político?O que é política? O que é arte? Podemos discutir infinitamente sobre isso. Acredito que sou, de certa forma, um ativista. Acredito que a vida é política. Então, se quiser chamar assim (arte política)…
Quando você se envolveu com a questão dos direitos dos animais?É uma coisa com a qual me importo muito. Veja: eu vivo em um mundo que não entendo. Tenho muitas questões, vejo muitas coisas que me machucam, que me fazem pensar “por que é assim?”. Tento digerir e reagir a isso na minha música. É sobre isso que eu falo.
Mas quando teve consciência dessas coisas?Cresci com música punk, que me abriu várias portas, especialmente as letras. Quando eu tinha 11, 12 anos, comecei a curtir bandas como Discharge e Dead Kennedys. Aquela música tinha um nível de energia que é muito atraente para o meu gosto, mas também fala sobre coisas que me interessam. Eu pensei: “Por que as pessoas não me falaram isso antes?”. Coisas como “por que existe guerra? Por que existe ódio?”, coisas simples que me incomodavam.
Você costuma usar a palavra “humanimalistic” (algo traduzível como “humanimalesco”): do que se trata?Coloco animais e humanos no mesmo nível. Para mim, o que conta é o direito de viver e o direito de escolher viver, a ideia de autonomia. Acho que tem a ver com respeito. É por isso que coloco tudo no mesmo nível: vida, em geral.
Em relação à música noise: o ouvinte tem que prestar muita atenção, não é um estilo de música que você ouve enquanto lava a louça…Não. É por isso que gastei tanto tempo na passagem de som. Gosto que seja alto, gosto que seja uma presença, para que as pessoas tenham que prestar atenção.
Mas, hoje em dia, temos que fazer 50 coisas ao mesmo tempo. Então esse estilo de música pode ser uma espécie de resistência (a esse ritmo de vida)? Gosto da ideia dessa música ser música de protesto. Como eu disse, uso minha voz em um sentido amplificado para falar de questões que me causam preocupação, me incomodam. Mas eu também gosto do lado artístico, gosto desses sons. Também é estético.
Você vai a lugares “exóticos” gravar sons de insetos. Pode me falar um pouco sobre isso?Começou quando fui para a Tailândia 16 ou 17 anos atrás. Foi minha primeira viagem à Ásia. Eu estava procurando a natureza, procurando lugares isolados distantes da “civilização”. Passei muito tempo em parques nacionais e então ouvi esses sons. Para mim, foi como uma epifania. O músico tem uma ideia do que seja o som perfeito. Você tenta criá-lo, mas é muito difícil. Quando ouvi esses sons de insetos, havia ali uma pureza que achei totalmente fascinante. Isso despertou meu interesse em todos esses sons de natureza.
Onde você fez essas gravações? Fez alguma na América do Sul?Sim. Fui para o Equador, passei cinco dias na Amazônia. Gravei um monte de coisa lá. As gravações que vou tocar hoje à noite são da Tailândia, do Vietnã, da Indonésia e também da Suíça. Mas eu prefiro os trópicos, os insetos costumam ser bem mais barulhentos.
E o que te atrai nos sons do corpo (usados na Video Action)?Vejo a escolha de uma maneira mais pragmática: quando comecei a carreira-solo, tive que pensar em fontes de som que fossem baratas e disponíveis, então sons do corpo pareceram uma primeira escolha natural.
Você afirma que usa o som como “um meio de ativar emoções primordiais escondidas pela civilização”. Você não fica, às vezes, com um pouco de medo do que pode trazer à tona? A
Video Action, em especial, desperta muitas emoções nas pessoas, elas reagem fortemente. Às vezes elas choram e coisas assim, o que meio que me machuca, mas quero tocar as pessoas com o que estou falando, quero dar a elas algo para levar para casa. Não dá para controlar como vão reagir, como vão interpretar, então eu sinto muito se o que eu faço machuca as pessoas, mas… uma ideia que eu gosto sobre esse tipo de apresentação é a de que há um elemento de liberação ali. O ruído, o modo como tento tocar o ruído, pode ser comparado a um exorcismo. Há um elemento de catarse. Gosto da ideia de liberar algo em níveis diferentes: intelectual, emocional, ou o que seja.
Vendo as apresentações e comparando a gravações que eu havia visto antes na internet, percebi que cada uma delas possui uma identidade e um conjunto de sons que podem ser usados, mas que, tirando isso, tudo é criado ali no palco, improvisado. Minha percepção está certa?Quando posso, crio sons “ao vivo” sobre o palco. Na
Video Action, esse processo pode ser percebido com mais clareza. O set Field Recordings é basicamente uma mixagem ao vivo de arquivos de sons pré-gravados, já que é impossível criar sons de inseto ou de sapos ao vivo. No entanto, bem pouco é improvisado. Não gosto de improvisação, apesar de haver, no microcosmo da minha apresentação ao vivo, espaço para improvisação. Mas a moldura principal, a estrutura, é uma composição. Eu tenho uma partitura clara na minha cabeça, sei muito bem quais sons vou querer usar em que ponto dentro de cada set etc.
Dave Phillips at Neon Marshmallow Fest (Day 2, 8/20/10) from Bullart. on Vimeo.
Dave Phillips apresenta Video Action em 2010, no Neon Marshmallow FestDepois da entrevista, um cara veio até mim e me perguntou se você é um primitivista. Disse que eu achava que não, mas não tinha certeza. Então, você curte as ideias anti-civilização de caras como John Zerzan?Uma outra pessoa me abordou em um momento da minha turnê e me fez a mesma questão. Pra ser honesto, nunca ouvi falar nem desse movimento, nem desse cara. Vou ter que fazer uma pesquisa...
Em 2008, você deu uma entrevista pro dono da Extreme Noise Records, na qual disse que estava tocando baixo em uma banda de crust hardcore/black metal que ainda não tinha nome. O que aconteceu com a banda? Ainda estão tocando juntos, gravaram algum material? Essa banda, Ketsu No Ana, infelizmente se desfez, por várias razões. Nosso baterista era brasileiro, ele estava ilegal na Suíça (ou seja, não podíamos fazer shows fora do país) e, em certo momento, ele voltou para o Brasil para arrumar a papelada e assim poder voltar pra Suíça e obter status legal. Bem, ele nunca voltou... Mais ou menos na mesma época, o vocalista e um dos guitarristas viajaram juntos e tiveram uma desavença... Pouco tempo depois disso, o squat em que fazíamos os ensaios foi atacado pela polícia. Eu estava bem ocupado com meu trabalho solo, então também não fiz muito esforço para continuar as coisas. Tudo isso se somou para que a banda se desmanchasse... o que sobrou foram as gravações... você pode ouvir/baixar aqui:
www.ketsunoana.ch.