Hoje em dia, todo mundo se sente meio conhecedor de arte
urbana no Brasil (ou street art, arte underground, escola autoindicada; escolha
seu termo preferido e não esquente a cabeça: seu artista preferido vai odiar de
qualquer forma). Na última década, além de terem tomado ainda mais espaço nas
ruas do mundo, os nomes dessa geração viraram queridinhos de colecionadores
milionários, museus e galerias tradicionais, publicações da grande imprensa e
outros avalistas dos gostos da elite e da massa. É um fenômeno natural e com
alguns desdobramentos excelentes, mas que também gera apropriações confusas e
diluições conceituais indesejáveis. A mostra multidisciplinar Transfer, originada
em Porto Alegre em 2008 e trazida a São Paulo em 2010, é um exemplo bem acabado
do crescimento desse cenário, mas felizmente também é algo mais. Idealizada por
Lucas Ribeiro, foi um empreendimento pioneiro ao introduzir uma visão abrangente
e contextualizada sobre as principais correntes do gênero no país.
Com Transfer,
o livro, o projeto ganha um braço editorial importante. O volume é dividido sob os mesmos eixos temáticos da mostra:
Autoindicados (com obras e publicações de artistas com raízes em subculturas
urbanas), Mauditos (artistas revelados em zines e reunidos no suplemento MAU,
da lendária revista Animal),
Intervencionistas (nomes da intersecção entre arte e skate) e Beautiful Losers
(parceria com a mostra estadunidense do mesmo nome, criada por Aaron Rose e
Christian Strike). Em cada seção, entrevistas e textos explicativos abordam temas
centrais, carreiras e momentos importantes, como a apresentação de Fabio
Zimbres ao eixo Mauditos, documento único sobre o tema. Outros destaques são as
entrevistas com Lost Art (por Lucas Ribeiro) e Carlos Issa (por Arthur Dantas,
publicada também na Soma 21). Tudo valorizado por uma seleção generosa de
trabalhos das mostras de PoA e de SP. O esforço do organizador em criar
correntes e elencar áreas de afinidades nessa área é dos mais importantes. Agora,
ele está ao alcance de todos os interessados em enxergar o que há além da
superfície.