Em seu primeiro álbum de estúdio, Where Were U in '92, Zomby homenageou o movimento raver com uma reunião de colagens do ardkore, do jungle, batidas descompassadas e barulheiras 8-bit, recriando os momentos mais excitantes do hardcore rave para os anos 00.
Em seus lançamentos posteriores, que datam de 2008 a 2009, a estrutura escolhida foi, novamente, a da paixão – trazer para o público seu amor por estilos da cultura clubber do Reino Unido. Neste apanhado, que reúne algo em torno de 50 faixas nunca lançadas oficialmente, Zomby vai do grime ao dubstep, do 2-step ao jungle. Todos estes lançamentos mostram o comprometimento do artista com o uso de estruturas musicais que privilegiem, além de texturas intrincadas, uma explosão de sentidos e de amor por batidas quebradas e pela sinestesia eletrizante da acid house e do movimento raver.
Com este histórico, era de se esperar que o segundo álbum oficial do artista mascarado trouxesse a mesma energia catalisadora e a mesma pegada de música feita para a pista. Entrando em meandros mais minimalistas e contidos do dubstep, entretanto, o artista mudou a estrutura da paixão extravasante para criar um amor menos físico e menos explícito. Seu segundo lançamento, Dedication, nunca vai ser considerado ambient music (já que toda a música de Zomby é perpassada pela noção de perigo, de ameaça, com sua sonoridade nervosa e repleta de tensão acumulada), mas está longe da pegada clubber de outros lançamentos de sua discografia.
A palavra chave de Dedication é contenção. Em vez de extravasar, o músico mantém suas emoções em uma sintonia mais calma, que cativa muito mais por seus elementos mesmerizantes do que pela agressividade de seus lançamentos anteriores. Mesmo tendo mudado de gravadora (este é seu primeiro álbum pelo selo independente 4AD, de artistas como Ariel Pink’s Haunted Graffiti, Gang Gang Dance, Bon Iver e Twin Shadow), a sonoridade de Dedication está muito mais próxima de um lançamento de seu antigo selo, o Hyperdub – Dedication retoma alguns elementos do som pressurizado, da melancolia abstrata e da angústia sonora de Black Sun, novo trabalho de Steve Goodman, aka Kode9.
Da bela e melancólia “Natalia’s Song” (que transforma a projeção vocal da ex-Rússia X Factor Irina Dubtsova em um lamento a la Cocteau Twins) , a sinistra “Alothea”, a densa e fantasmagórica “Vortex”, e o techno com cara de videogame de “Things Fall Apart”, que conta com a participação de Noah "Panda Bear" Lennox, Dedication é um álbum de texturas. Elas não explodem, não exultam em celebração, mas trazem em si uma comemoração mais discreta de todos os elementos musicais tão amados por Zomby. Daqueles álbuns para se ouvir muitas vezes e procurar muitos significados.