Dois dos melhores álbuns norte-americanos de 2011 tocando na sua cidade, no mesmo show, com preços razoáveis (em comparação à média do inflacionado mercado brasileiro), contando com Kurt Vile – nome em ascensão no rock alternativo desde que largou o The War on Drugs em 2008 – e ninguém menos que Thurston Moore, líder do Sonic Youth. Esse era o plano para o palco do Cine Joia nesta quinta-feira (12) em São Paulo, como parte da turnê que os dois estão fazendo pelo Brasil e que ainda passou por Porto Alegre e Rio de Janeiro.
Parceiros de gravadora, os dois já tinham se apresentado juntos em meados do ano passado e voltaram a excursionar desde que o Sonic Youth deu uma pausa nas atividades para discutir a relação. Mesmo com alguns anos de diferença – “alguns” é brincadeira, Thurston tem idade para ser pai de Kurt – os dois partilham, a princípio, de uma identidade sonora semelhante nessas empreitadas solos, com estilo apontando para o folk-rock um tanto quanto psicodélico e experimental.
Boa parte do público parecia desconhecer Kurt, embora o álbum Smoke Ring For My Halo tenha integrado diversas listas de melhores do ano em sites e revistas especializadas nos EUA e na Europa (e na Soma). Talvez essa frieza tenha se refletido na banda, que fez um show pouco empolgante. Não que tenha sido ruim, pelo contrário. Kurt mostrou as cartas que tinha na manga, alternando canções mais pops, como "In My Time", com músicas mais introspectivas. Também não deixou de fora sons mais ácidos, como "Ghost Town", e coisas mais pesadas dos CDs anteriores. Só que ele falava pouco com a plateia e dava a impressão de estar engessado no palco.
Mesmo sabendo que 90% do público estava lá para ver Thurston Moore, faltou um pouco de ousadia em pelo menos tentar superar o mestre. Kurt se acomodou em suas belas melodias e fez uma apresentação do tipo “venceu, mas não convenceu”. Além disso, a reverberação nos vocais, uma de suas marcas registradas, parecia um tanto exagerada, o que cansava os ouvidos no fim da apresentação.
De qualquer maneira, Kurt Vile e os Violators deixaram o palco sob intensos aplausos, os mesmos que, cerca de 15 minutos depois, Thurston Moore receberia quando foi sua vez de se apresentar. Gigante e desengonçado, o guitarrista se enrolou com o pedestal e com a estante para partitura já na entrada, deixando o público angustiado por alguns minutos. E foi então que ele e sua banda, composta de mais um guitarrista, um baterista e uma violonista que também fazia às vezes de baixista, deram início aos trabalhos com “Orchard Street”, do álbum mais recente, Demolished Thoughts.
Quando ele começou a tocar a música na guitarra, pensei: “estranho, mas ok”, já que esse álbum inteiro é acústico. E a sonoridade que ele imprimia até então realmente se assemelhava ao som acústico do estúdio: calmo e com o violino acompanhando a melodia.
Só que quando a canção se encaminhava para o final, Thurston pisa na distorção e mostra a que veio, criando as famosas texturas sonoras que fizeram Sonic Youth ser a Juventude Sônica. Foram longos 2 ou 3 minutos de noise puro, microfonia a mil e esquizofrenia sonora que deixaram a plateia sem qualquer reação. Até que, em meio ao caos, a sujeira dos amplificadores é cortada abruptamente. E ao público não restou outra coisa a não ser entrar em êxtase. Ali já se prenunciava o jogo ganho – e mais que isso, ganho com um baile.
Desenvolto, Thurston não deixou a peteca cair em momento algum. Quando precisava, emendava uma música na outra, fazendo transições num timing perfeito. Quando queria fazer uma pausa, brincava com o público. Apresentou a banda, elogiou a água da garrafinha, pegou as coisas que o pessoal arremessava no palco – incluindo uma escova de dente que algum insano jogou e que ele agradeceu – e partiu para a próxima.
Sem Kim Gordon e Lee Ranaldo para dividir os holofotes, Thurston Moore brilha, e muito. Tantos anos de estrada nas costas certamente o ensinaram a ter presença de palco sem necessidade de grandes malabarismos ou efeitos estéticos. No palco, ele engrandece e faz o que quiser.
Manda uma versão encardida de “It's Only Rock'n Roll”, do Rolling Stones, despindo a faixa de qualquer vestígio de blues, e depois saca a lenta e belíssima “Blood Never Lies” no violão. Algumas canções depois, lá está ele esmurrando a guitarra e empurrando a alavanca sem dó, após solar quase de joelhos no palco e criar torrentes de barulho.
Essa montanha-russa musical que Thurston conduz como se fosse um maestro faz o show de cerca de 1h30 parecer menos. E quando o cansaço começou a bater, ele se retira do palco só para voltar e fazer um bis com "Patti Smith Math Scratch", uma porrada vinda direto do túnel do tempo noventista resgatando seu primeiro álbum solo, Psychic Hearts (1995), que, aliás, foi tão tocado quanto o Demolished Thoughts, que supostamente deveria ser o carro-chefe do show – pelo menos era o que eu esperava.
Na saída, os comentários que consegui captar com o ouvido zumbindo eram unânimes: forte candidato precoce a um dos melhores shows do ano.
Fotos por Fernando Martins Ferreira / Soma