Curtir, perambular e lutar na cidade cinza para Ogi são quase sinônimos. E, nos vãos dessa luta permanente, sobram paranoia, premonições, curtição notívaga, dilemas pedestres como a procura por trabalho no centro de São Paulo e muito mais, embalados num cronismo simples e articulado, totalmente único no rap atual, empenhado em driblar o sufoco da existência cotidiana.
A malandragem sem afetação de seus versos gingados e absurdamente bem escritos, com imagens vivas, lembram vultos literários como Plínio Marcos (as narrações que abrem e fecham o disco são dele) ou João Antonio, e remetem diretamente ao samba-crônica de um Adoniran Barbosa. Faixas como “Pronto Pra Guerra” e “Zé Medalha” são puro videogame, e isso – mas definitivamente não só isso – o coloca com os dois pés em nosso tempo. Com seu destemor em fazer uso dessa linguagem “menor”, ele se torna um MC ímpar, sobretudo pela destreza de sua escrita e de sua levada sinuosa, que contempla tanto falas ébrias como o frenesi de um contador de causos inflamado. Ogi tem dimensão e talento para amalgamar distanciamento à participação no que se passa na sarjeta bem conhecida por muitos de nós.
O disco, ao contrário do lugar-comum da metáfora do título, comumente usada ao falar de São Paulo, é rico em momentos, e a produção irregular, assim como as participações que pouco acrescentam (muito em função do gigantismo do próprio Ogi), com exceção da colaboração preciosa de Lurdez da Luz, conferem uma certa oscilação que torna ainda mais evidente o labor de Ogi: o disco se impõe na medida em que o MC constrói as melhores fábulas e versos possíveis para explicitar o que é viver nesse “monstro gigante”. Curioso como ele pontua o trabalho com samples de Mano Brown, que funciona como uma espécie de voz da consciência no álbum. Ogi preenche plenamente um dos poucos vácuos deixados pela maior voz do rap nacional, ao eplorar experiências de homens fortes em tempos sombrios – o tempo ruim de nascer do lado desfavorecido da sociedade, o tempo sombrio da própria consciência e da insônia que fazem Ogi fabular sobre o mundo notívago. Poesia áspera, rara e urgente.