Assim como o que foi falado sobre o MC Ogi nesta edição (leia o review de Crônicas da Cidade
Cinza na seção de discos), Marcello
Quintanilha (ex-Marcello Gaú) tem predileção pelo que se passa na vida da
“gente miúda”. Não é de se estranhar que ele seja, indiscutivelmente, o maior
cronista das HQs nacionais.
Neste seu lançamento mais recente no Brasil (o autor vive na
Espanha), Quintanilha fabula um rol de “almas públicas”que têm vida plena nos
limites de cada quadrinho, e vivem com tamanha textura, que a experiência é
compartilhada pelo leitor. Como Hugo Pratt com seu Corto Maltese, só que com dezenas
de personagens, e com uma diferença fundamental de perspectiva: se, em Pratt, o
marinheiro errante fazia do mundo seu quintal, em Quintanilha os quintais de
cada história evocam vivências universais. Tais vivências estão por todos os
lados, seja no jogador da segunda divisão do campeonato baiano que ganha
notoriedade fugaz, no amor de um cidadão humilde que a cada ano experimenta uma
vida plena nas três noites de carnaval, ou no assanho da bicha pobre Tião
Pomba-Gira, que mexe com a libido e a culpa de um botequeiro de subúrbio.
São sete episódios,
algum deles publicados anteriormente no álbum Fealdade de Fabiano Gorila (1999), também pela Conrad, que definem
um microuniverso que, graças ao talento enorme do autor, explica vidas inteiras
em um único quadrinho. Como um trabalho de Goya ou Rugendras, só que aqui tudo
é absolutamente HQ, sem apelo a citação, sugestão ou mimese de procedimentos de
outras linguagens. O talento de Quintanilha se assemelha ao de Loustal quando
este lida com a tradição francesa, mas em chave brasileira até o último
rabisco. E, assim como faz Loustal, suas histórias se encontram em um meio
termo de fabulação que faz do leitor co-autor da obra, encenando um antes ou
depois para cada fragmento de vida escancarado em suas crônicas. Em Almas
Públicas, um mundo inteiro –
corriqueiro, cotidiano e, por isso mesmo, mais profundo – é encenado em um
espaço exíguo. Quintanilha é, mais do que um grande artista de seu meio, um gênio
urgente, essencial, com histórias na cadência de um bom samba malemolente.