Seu mundo pode ser aquele que apresenta crises econômicas, rachaduras sociais e cidades em chamas. A abstração disso na música pop atual pode virar um contraponto hedonista de bandas festeiras ou uma rara reflexão mais madura (e perigosamente próxima da arrogância). Mas também pode refletir um estado maior de sentimento de inadequação ou tristeza. No caso de Father, Son, Holy Ghost, segundo álbum dos californianos do Girls, o universo retratado é exatamente o da perdição romântica e a desesperança. Pode parecer pessoal demais, mas acaba tendo apelo maior, em um cenário universal em que sentimentos tão comuns são relevados. Em suma, o som de caras chapados cantando sobre garotas que se vão faz mais sentido do que afirmações unidimensionais sobre conflitos, bolsa de valores e violência. No meu mundo, pelo menos.
O que chama a atenção é que o disco soa mais pesado, trabalhado em um cenário maior, sem perder algumas características que fizeram a fama do primeiro álbum: letras confessionais e auto-piedosas, no limite entre a embriaguez e a beleza, passagens melódicas matadoras e a fragilidade vocal de Chris Owens. “Honey Bunny” engana de início com certa similaridade com as músicas de Album, mas a quebra melódica no meio cria uma espécie de marca, que acaba por definir muito do que virá pela frente: estruturas mais firmes, nuances antes inexistentes e mais peso instrumental. “Die” é praticamente um hard rock setentista, Chris encaixando um "We're all gonna die, we're all gonna die!": a canção que começa com os músicos atacando os instrumentos sem dó, emulando uma apresentação ao vivo, se encerra de forma quase pastoral, e demonstra que a produção (da própria banda em conjunto com Doug Boehm) se esforçou em captar uma pegada mais forte e dinâmica, algo que faltava em alguns momentos de Album . “My Ma” é uma balada country-rock-gospel recheada de guitarras encharcadas de efeitos, interessante exercício em que a banda não foge de estruturas conhecidas mas evita a obviedade: está tudo lá, desde a slide-guitar até o coral, mas ainda assim soa novo, pertinente. “Vomit”, o primeiro single, pode ser a “Hellhole Ratrace” (single que chamou a atenção para a banda) do atual momento: servindo de peça central do trabalho, a canção cresce lentamente construindo um clímax que é puramente psicodelia: teclados e guitarras tecendo barulho. A parte final da música novamente chama um coro para emoldurar o apelo de "Come into my heart" de Owens; ecos de Pink Floyd e Spiritualized, em um conto sombrio sobre noites insones e angustiantes. “Just A Song” possui uma certa melancolia narcótica não muito distante de algo de Neil Young circa On The Beach: o californiano de "corpo ossudo" do Girls traz sempre um lirismo no limite da decadência, quase subjugado em sua inadequação e arrependimento. A combinação do instrumental leve com a batalha do compositor em levar adiante seus versos desesperançosos resulta em uma peça de repetição insistente e arranjos delicados.
De certa maneira, assim como Young em seu disco de 1974, Owens parece lutar para sobrepujar sua própria visão de um mundo deprimente. Um motivo a mais para cravar o crescimento criativo do grupo é a sequência com a leve “Magic”, que traz um certo alívio com a típica simplicidade melódica e lírica da banda. Sem soar fora de contexto, a música transporta o ouvinte para um tipo de soft-rock direto e lúdico, como um encontro do Fleetwood Mac com o Elvis Costello, conteúdo imagético rico e quase óbvio: Califórnia, sol, boa companhia = mágica. “Love Like A River” é bela embora montada sobre trejeitos soul manjados: o uso quase inconsequente de referências de décadas passadas - no caso, a soul music dos anos 60 - é um dos trunfos do núcleo criativo do Girls: a informação musical não faz com que busquem um compêndio de melhores momentos do pop, mas sim uma entrega despojada e energética, como o resultado de audições de (muitos) bons discos, de todas as épocas.
O Girls se posiciona como uma banda que consegue reunir características aparentemente divergentes: as letras são simples, mas possuem efeito emocional; a estrutura das músicas não é desafiadora, mas esconde truques; muitas vezes os acenos a décadas passadas são reconhecíveis, mas as canções possuem frescor e originalidade. Talvez como uma escolha em fazer de Father, Son, Holy Ghost uma trilha sonora adequada para dias tensos e também para momentos de introspecção.