Fotos por Fernando Martins Ferreira
No clipe de “Elegância”, o rapper Rincon Sapiência se arma do paletó e do chapéu para criticar e tirar sarro do estereótipo do cara da quebrada mal vestido e alvo fácil do preconceito da polícia e de quem olha de cima. “Preto informado é sempre perigoso, preto bem trajado, elegante e charmoso. Pago pouco pelos panos mas sou vaidoso. Pago muito se eu deixar de ser malicioso”, diz ele no vídeo, mostrando seu guarda roupa colorido, charmoso e, claro, elegante.
Musicalmente, Rincon mudou muito desde o lançamento do clipe e de seu primeiro single independente, PromoTrampo Volume 1. Dois anos depois, o rapper Manicongo coleciona novos singles em seu canal no Soundcloud e, depois de muita espera, começa a se preparar para lançar um novo trabalho. O que era para ser um EP deve se transformar em um álbum, ainda sem previsão oficial de lançamento.
Da levada esperta e maliciosa de Elegância até a pegada sinistra de músicas mais recentes, como “Missão dos Malote” e “Sem Medo”, o Sr. Kinta Fera está de olho no futuro e tenta sintetizar essa variedade e suas mudanças de estilo não só na música como no guarda-roupa. Se no clipe de “Elegância” seu arsenal de looks vai do estilo mafioso ao cara da quebrada em um piscar de olhos, o mesmo acontece no dia-a-dia. “Acho que o meu estilo e toda a minha imagem mostram que eu sou um cara um pouco além do rap. O rap é a minha base, meu alicerce, mas olhando para mim acho que dá para sacar a influência de outros estilos, pesquisas e experiências de vida”, explica.
Rincon Sapiência "Elegância" from PorqueeU Conceito e Conteúdo on Vimeo.
Para entender melhor essa imagem e dar uma olhada de perto no guarda-roupa mais versátil do rap brasileiro, fomos até a Vila Sílvia visitar o rapper e acompanhá-lo na escolha de cinco looks essenciais do guarda-roupa Manicongo. O resultado você confere abaixo e na galeria ao lado:

Depois de muito tempo desbravando as peças de seu guarda-roupa, Rincon escolheu a primeira composição essencial do estilo Manicongo. O tênis branco, o paletó quadriculado, o detalhe vermelho da camisa e o pulôver relembram alguns looks do clipe de Elegância, e remetem a uma época em que o rapper começava a garimpar peças interessantes para compor seu guarda-roupa e seu estilo.
“Comecei a comprar roupas em brechós, principalmente pela praticidade de achar peças que eu sempre quis ter mas não tinha grana pra comprar. Sempre achei muita coisa barata. Mas a criação do meu estilo também veio por uma questão de praticidade: comecei a comprar blazers, paletós e pulôvers, por exemplo, para montar um guarda-roupa de frio mesmo, coisa que eu nunca tive direito”, contou ele, que hoje gosta de sobrepor peças para criar um estilo mais diverso ao mesmo tempo em que se protege do frio de São Paulo.
“Quando eu dava aula de poesia no Jardim Fontales, na Zona Norte, descobri muitos brechós e bazares em casinhas, onde tudo era extremamente barato. Dava para comprar uma calça por R$ 5, um blazer legal por R$ 10. Como nessa época eu ganhava muito pouco por mês, era uma mão na roda. Foi assim que comecei a montar um look mais elegante para o frio, usando peças fáceis de encontrar e que hoje estão sempre no meu guarda-roupa”, completou.

Para o segundo look, Rincon escolheu um estilo militar, que segundo ele ainda precisa de uma ocasião especial para sair do armário. “Eu adoro roupas nesse estilo militaresco, mas essa combinação específica que estou usando aqui é uma que ainda preciso achar aquele momento especial e perfeito para usar. Não é qualquer ocasião que comporta um look desses”, explicou.
Embora quase todo o seu guarda-roupa seja composto por peças garimpadas pelo Brasil, o look militar traz uma história internacional.
“Recentemente eu fui convidado para tocar e participar de alguns workshops em um festival no Senegal. Depois de dois shows, fui convidado pelos músicos para ir até a Mauritânia, que fica bem perto, praticamente a distância entre São Paulo e Rio de Janeiro. Fomos de carro, passando por alguns lugares extremamente roots, com casas de palha e camelos andando a esmo nas estradas. Quando chegamos e começamos a nos enturmar, eu falei para um dos músicos que queria achar uma roupa como a dele, já que lá é comum usar peças com inspiração militar. Ele me levou em uma zona de comércio que parece o Brás, com uma imensidão de barracas e roupas incríveis”, contou, animado.
Segundo ele, mesmo que o look seja difícil de combinar (“essa calça não dá para usar com praticamente nenhuma outra peça”), a composição é um dos xodós de seu guarda-roupa.

O terceiro look selecionado por Rincon retoma o tema da viagem para a Mauritânia e da importância da imagem e da moda no seu estilo de música e de vida.
“Na África, eu definitivamente percebi que não posso mais focar a minha música especificamente na cena do rap. Quero que as pessoas olhem para mim e percebam logo de cara que eu quero ir atrás de vários estilos, várias pesquisas, vários elementos. O lance das cores explica bem isso, porque eu sou extremamente colorido e na África, fonte principal de toda a minha sonoridade, é muito comum o uso de cores quentes”, contou Rincon.
“Um corte moicano, por exemplo, mostra quem eu sou. É um corte muito comum na quebrada, que é de onde eu venho, e faz com que eu me sinta parte de uma tribo. É importante que eu me sinta conectado a todos os elementos que fazem parte da minha identidade: ritmos ancestrais, o rap, a quebrada... tudo isso faz o Rincon”, complementou.

Mesmo com o sol aparecendo em todos os momentos do ensaio, Rincon fez questão de sempre colocar um agasalho para compor seus looks.
“Para ser bem sincero, roupa de calor é o meu fraco. Praticamente não tenho nada, quase não uso short bermuda. Meu negócio é roupa de frio, é sobrepor várias coisas”, contou ele.
Mais despojado, o quarto look foi o mais rápido de ficar pronto, e sua versatilidade faz com que a composição funcione tanto para um passeio pelo centro da cidade para fuçar discos até se apresentar em um show no fim da noite. “Na hora do show, é importante mesmo montar um look mais simples que eu consigo ir modificando. Se ficar quente no palco, é só tirar a jaqueta que a blusa debaixo dá conta do recado”, garantiu.

O principal coringa do guarda-roupa Manicongo, entretanto, é esta última composição, considerada por Rincon a mais simples e a mais importante.
“Eu decoro as composições para facilitar o dia a dia. Mesmo porque não dá para passar tanto tempo todo dia preparando o visual (risos). Esse último look, por exemplo, é bem meio termo. Dá para usar no frio e se esquentar eu tiro a blusa de cima e pronto, continuo bem. Adoro pulovers, blazers, ficam sempre ótimos e são úteis em uma cidade em que o tempo muda muito rápido. Esse meu look é super básico, e é a partir dele que eu acabo criando outras composições mais complexas para ocasiões especiais. Saindo desse jeito de casa não tem erro”, afirmou ele, que mesmo na escolha mais simples fez questão de contrastar duas cores fortes em uma mesma composição.
“Sem nenhuma cor quente, não dá. Melhor ficar em casa”, brincou ele, enquanto voltava para um visual mais despreocupado (mas ainda com cores) para brincar com seu filho, o pequeno Manoel, de quatro anos.