Para um ídolo do rock alternativo, citado como influência crucial por artistas tão díspares como LCD Soudsystem e Simple Minds, Michael Rother parece bem tímido e até mesmo pouco consciente de sua importância na história da música pop.
No final do ano passado, em meio a sua turnê pelo Brasil com o Hallogallo – projeto completado pelo baixista Aaron Mullan (Tall Firs) e pelo baterista Steve Shelley (Sonic Youth) –, o guitarrista alemão, ex-membro dos grupos Neu! e Harmonia, confessou que assistiu a seu primeiro show de um Beatle no dia anterior, quando viu Paul McCartney no estádio do Morumbi. “Eu era muito fã dos Beatles nos anos 60, foi incrível ver Paul ao vivo”, ele contou nos camarins do teatro do SESC Vila Mariana, em São Paulo.
No palco, o Hallogallo funciona como um relógio, tocando faixas dos grupos anteriores de Rother, além de material inédito, sempre impulsionado pela bateria de Shelley, inspirada no ritmo constante criado por Klaus Dinger (a outra metade do Neu!, morto em 2009) e apelidado de “motorik” pela crítica britânica nos anos 70. Em uma conversa de 20 minutos – Rother estava com febre e queria descansar antes da apresentação – o pioneiro do krautrock rejeitou o rótulo de “lenda” e lembrou da companhia nem sempre agradável de Dinger, além das dificuldades em reproduzir a música do Neu! ao vivo no início da carreira. Ao revelar seus planos para o futuro, ele parece descrever as paisagens intermináveis de músicas como “Für Immer” e “Negativland”, que estão entre as melhores produções do Neu!: “Quero apenas seguir em frente”.
Quando você achou que era hora de revisitar a música que fez com o Neu! e com o Harmonia nesse novo projeto?
Eu tenho feito coisas próximas a esse tipo de música há um bom tempo, então não foi algo que apareceu do nada, que eu acordei pensando um dia. Durante a reunião do Harmonia em 2007, com Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius, eu me senti um pouco limitado no que poderia fazer, porque o equilíbrio entre nós três era maior, cada um tinha a sua linha de pensamento. Na verdade eu sempre quis voltar a tocar as músicas do Neu!, mas meu foco foi mudando ao longo dos anos, e acho que vou seguir mudando. Há momentos em que eu quero fazer algo experimental, lento, tranquilo, mas agora não quero ser tão tranquilo – pelo contrário, quero criar algo dinâmico com esses dois grandes músicos.
Como você escolheu o Steve Shelley e o Aaron Mullan para esse novo projeto?
Conheci o Aaron em 2008, no festival All Tomorrow Parties, na Inglaterra. Ele estava trabalhando como engenheiro de som para o festival, e a organização ofereceu ele para cuidar do show do Harmonia. Ele sabia como era o nosso som e fez um ótimo trabalho. Nós começamos a conversar, tomamos umas cervejas e viramos amigos. Alguns meses depois, ele cuidou do som do All Tomorrow Parties em Nova York. Ele já havia conversado com o Steve sobre a ideia de gravarmos uma sessão no estúdio do Sonic Youth, o que acabamos fazendo. Seguimos mantendo contato, conversando sobre a gravação e sobre a possibilidade de tocarmos ao vivo, e aqui estamos.
Qual é a diferença entre tocar as mesmas músicas com Klaus Dinger nos anos 70 e com eles agora?
A gente não tocou muito ao vivo nos anos 70, esse era um dos maiores problemas que tínhamos na época. Éramos completamente dependentes do estúdio para criar os sons que queríamos. Tentamos realizar uns seis ou sete shows em 72 e meio show em 74. Ficamos bastante frustrados com o resultado, porque era impossível fazer uma música completa apenas com a bateria de Klaus e a minha guitarra. Tentamos adicionar mais músicos, mas não funcionou. A música do Neu! era muito pessoal, e naquele momento era impossível apresentar isso ao vivo.
“Às vezes as pessoas me perguntam ‘como você se sente sendo uma lenda?’.
Se eu não fosse educado, diria ‘isso é idiotice’. Fico feliz em saber
que a minha música segue influenciando as pessoas depois de tanto tempo,
mas sei que as coisas já foram diferentes, e que o futuro também vai
ser diferente. É ótimo ouvir alguém falar coisas boas sobre a minha
música, mas tento não levar isso tão a sério.”
E agora, tocando para plateias cheias de pessoas que não tinham nem nascido quando o Neu! lançou seu primeiro disco, você percebe melhor a influência do que vocês criaram?
O interesse pelo Neu! e pelo Harmonia cresceu consideravelmente nos últimos anos. Nos anos 80 ninguém parecia interessado em ouvir Neu! ou Harmonia, estávamos fora de moda. Começou a ficar melhor a partir do meio dos anos 90, quando Julian Cope (escritor e músico britânico, ex-líder do grupo Teardrop Explodes) lançou o livro Krautrocksampler, que fez com que, pelo menos na Alemanha, algumas pessoas de repente se sentissem orgulhosas da nossa música, começassem a pensar sobre ela, a perguntar “por que esse cara está tão empolgado com esses alemães loucos?” (risos). Quando relançamos os três primeiros álbuns, em 2001, muita coisa mudou.
Nos anos 70 existia essa ideia, criada por jornalistas britânicos, de que havia todo um movimento na Alemanha, que eles chamavam de “krautrock”, mas quando lemos entrevistas de músicos da época percebemos que não era algo assim tão amplo.
Para mim e para o Klaus existia a ideia de fazer algo completamente diferente do que qualquer outra pessoa estivesse fazendo, não queríamos fazer parte de uma cena. Nós queríamos ser únicos.
E para vocês, Aaron e Steve, como tem sido tocar com o Michael?
Steve . É horrível (risos).
Aaron . É impossível trabalhar com ele (risos). Na verdade tem sido bem divertido, poder viajar pelo mundo e tocar essa música que amamos. Passamos mais tempo saindo, jantando, conhecendo as cidades, do que em cima do palco.
Para um baterista deve ser um pouco desafiador, não?
Steve . Isso não é problema. O Neu! foi uma banda importante para pessoas da minha idade, para as pessoas da idade do Aaron – ele é um pouco mais novo. Para muita gente, o Neu! pode ter sido tão importante quanto o Velvet Underground, o Television, os Stooges. Essa música underground ajudou a formar muitas coisas que apareceram depois. Às vezes estamos em algum lugar e ouvimos alguma música do Joy Division e eu acho que tenho que mostrar para o
Michael: “Olha, acho que esses caras eram grandes fãs do Neu!” (risos).
Hoje em dia você tem mais noção do quanto o seu trabalho influenciou a música contemporânea?
Não é uma boa ideia se concentrar tanto em se sentir um herói ou uma lenda. Às vezes as pessoas me perguntam “como você se sente sendo uma lenda?”. Se eu não fosse educado, diria “isso é idiotice”. Fico feliz em saber que a minha música segue influenciando as pessoas depois de tanto tempo, mas sei que as coisas já foram diferentes, e que o futuro também vai ser diferente. É ótimo ouvir alguém falar coisas boas sobre a minha música, mas tento não levar isso tão a sério.
Li em algumas entrevistas você afirmando que a sua relação com o Klaus era um pouco difícil. As diferenças entre vocês eram pessoais ou artísticas?
Os problemas aconteceram realmente no nível pessoal. Mesmo no começo, antes de Klaus começar a ficar afetado pelas substâncias que usou ao longo dos anos, ele era uma pessoa que eu não queria ter por perto. Mas era ótimo criar música com ele. Tive sorte por sua viúva ser uma pessoa muito amável, que tornou possível o lançamento da caixa. Ela podia ter vetado tudo, incluindo a nova versão do disco Neu! 86 (lançado por Klaus em 1995 como Neu! 4, sem o consentimento de Michael). O Neu! era uma colaboração artística, e tocar com um baterista como Klaus era incrível. Foi a primeira vez que encontrei alguém com tanta determinação e vontade. Klaus era uma força da natureza. Eu sempre me lembro de um incidente: estávamos tocando com o Kraftwerk no começo da carreira deles, e o Klaus usava uns pratos quebrados – ele adorava o som que conseguia tirar daquilo. Ele cortou a mão em uma das pontas afiadas dos pratos – foi um corte feio, que espalhava sangue para todo lado. Eu olhei aquilo e depois vi a plateia, que estava de queixo caído, e o Klaus não parou de tocar nem por um instante. Se fosse eu teria parado, pelo menos para colocar um curativo. Isso diz muito sobre ele. Ele tinha uma personalidade muito forte. Isso de certa forma foi bom, porque adicionou muita beleza e força ao que fizemos.
"O livro Krautrocksampler, de Julian Cope, fez com quem algumas pessoas [na Alemanha] de repente se sentirem orgulhosas da nossa música, começassem a pensar sobre ela, a
perguntar “por que esse cara está tão empolgado com esses alemães
loucos?”
E depois da turnê, podemos esperar um disco do Hallogallo?
Não estou muito bem de saúde, preciso descansar um pouco. Não estou reclamando, nunca estive na América do Sul nem no México. Os shows são ótimos, esse projeto tem me levado por todo o mundo. Fico surpreso em saber que minha música chegou tão longe. Na verdade é o contrário, acho que ficaria surpreso se a minha música fizesse sucesso na Alemanha (risos). Quero descansar bastante e depois vamos ouvir as gravações que fizemos – estamos gravando alguns shows, inclusive –, existe bastante interesse, algumas gravadoras já fizeram propostas. Acho que faz sentido registrar algo desse projeto. E depois seguir em frente, fazendo mais música, ou então... Não sei, apenas seguir em frente.
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