Charles Bradley, uma das principais atrações da Virada Cultural
POR Divulgação
Todo ano o paulistano se vê diante do mesmo dilema: o que fazer diante da Virada Cultural. Aquela programação claudicante, aquele frio de arrepiar, as multidões, a “proibição” (quem foi ano passado constatou que tava BEM PROIBIDO) da venda de álcool. Muitos escolhem ficar em casa com os amigos, mantendo aquela sincera atitude antissocial e um pouquito mala.
Nós normalmente nos alinhamos com os menos rabugentos e, apesar dos pesares – e das "denúncias" do tal V de Virada – sempre acabamos caindo na gandaia. É muito bom poder dar um rolê de madrugada pelo centro de São Paulo e ver tanta gente se divertido das mais diversas maneiras. E, ainda, se você tiver sorte, pode trombar com um bom show – ou com uma multidão gigantesca te separando do palco que você quer assistir, como acontece constantemente.
Se você decidir encarar o centro de SP entre o sábado (5) e o domingo (6) – as atrações nos CEUs e SESCs são bacanas, mas a Virada de verdade é no centrão – as dicas são as mesmas de sempre: se hidrate, vista roupas quentes e confortáveis (especialmente na madrugada), carregue dinheiro trocado, lembre de levar uma mochila com remédios, água, lanchinho e outras necessidades, e fique de olho para não dar pala com seu espertofone ou tabuleta eletrônica. A Virada é civilizada, certamente, mas você não precisa tentar a sorte com tanta veemência.
Dito isso, é só conferir abaixo nosso roteiro/ guia da Virada Cultural, com as melhores dicas e as maiores bombas da programação de 2012. Se quiser se programar para ver diferentes palcos, lembre-se que, apesar das distâncias serem curtas, a galera que vai estar nas ruas é grande. Para mais opções e um mapinha com os palcos, visite o site oficial do evento (se ele estiver fora do ar, acesse essa belezinha aqui).
Palco Júlio Prestes
Se você for daqueles que começam cedo a Virada, a programação melaninada do palco da praça Júlio Prestes é uma ótima opção. Na real dá para ficar direto por ali das 18h – quando congolês Ray Lema abre a noite – até depois das 2h30, com o filho do homem Seun Kuti mandando um afrobeat. No meio ainda rola o highlife velha guarda de Ebo Taylor (20h30) e mais afrobeat, dessa vez com um dos pais da matéria, o baterista Tony Allen (0h). A partir do café da manhã a programação fica bacana, com Lazzo Matumbi (10h30) e os jamaicanos do The Abyssinians (15h30) – o esperado Toots & the Maytals cancelou pro prolbemas de visto. Gilberto Gil fecha o palco às 18h, uma boa pedida para quem acordou da ressaca do dia anterior mas não quer deixar a empolgação morrer.
Ray Lema
Seun Kuti
Ebo Taylor
Tony Allen
Lazzo Matumbi
The Abyssinians
Gilberto Gil
República
Se a música negra do palco da Júlio Prestes é mais, digamos, “terceiro-mundista” (Àfrica, Brasil, Jamaica), na República o lance são as manifestações mais “urbanas” do mesmo espectro. A noite começa bem no jazz, com o quarteto do pianista McCoy Tyner (19h), o sax cheio de alma de Lou Donaldson (21h30) e o influente vibrafone de Roy Ayers (0h). O neo-Zimbo Trio toca com Raul de Souza às (2h30), e também vale acompanhar, mas é melhor vazar antes das 5h, quando o Violentango entra para estragar atrozmente o ritmo argentino. E se o rap não tem um palco exclusivo na Virada, tem alguns bons representantes espalhados na programação, caso de Dexter (10h) e Flora Matos e Lurdez da Luz (12h30), para acordar a galera. O soulman recém-descoberto Charles Bradley toca às 15h, e o ex-Family Stone Larry Graham fecha os trabalhos com a sua Graham Central Station às 17h30.
McCoy Tyner
Lou Donaldson
Roy Ayers
Zimbo Trio
Dexter
Flora Matos
Lurdez da Luz
Charles Bradley
Larry Graham
Largo São Francisco – Rodas de samba
Aí não tem erro, né? 24 horas de rodas de samba, vindas de todos os cantos de São Paulo. É um verdadeiro curinga – se tudo deu errado, você sempre pode cair no samba. Marque o Largo São Francisco com carinho no seu mapa.
Largo Sta. Ifigênia – Roda de rock
Gente, ironia tem limite. Ah, não é ironia, realmente uma banda vai passar 24 horas numa rodinha tocando clássicos do roque. Alto risco de vergonha alheia. Marque o Largo Santa Ifigênia como um lugar a evitar no seu mapa.
Palco São João
O Palco São João é para onde as bandas velhas de rock vão para morrer. Estamos falando de uma escalação que inclui os “Mutantes” de Sérgio Dias (2h), o Iron Butterfly (23h30), o Made in Brazil tocando um disco de 76 (18h30), e os remanescentes do Morphine tocando com um cara que NÃO É o Mark Sandman (morto em 1999), às 4h30. Para fechar, o Spinal Tap da vida real, o Black Oak Arkansas (17h). Porém, pra não dizer que não falamos de bandas boas, dá pra ver o dia nascer feliz com o ótimo White Denim (às 7h) e na sequência, dá pra mandar um café da manhã dos campeões ao som de – sabemos que esse nome realmente bate forte no coração de parte do público leitor da Soma – Suicidal Tendencies, essa nova banda de tiozões que era radical nos anos 80/90, às 9h30.
White Denim
Suicidal Tendencies
Barão de Limeira
Se na São João os elefantes vão para morrer, a Barão de Limeira é o território do vudu – dá-lhe banda morta ressurreta como zumbi. Além da pergunta “quem mandou voltar o Pin Ups (8h30)?”, há de se lidar com a nova invasão dos Jimmi Cliffs do surf, o Man or Astro-Man? (22h30) – sem contar o Brothers of Brazil (13h30), a coisa mais sem sentido já produzido pelo DNA Suplicy. Entre Sergei (18h) e o DeFalla (é, eles também "voltaram", 11h), dá para tentar apostar no prog cabeludão d’A Bolha (20h) e no herói psicodélico Daevid Allen (ex-Soft Machine, Gong), que vem com um repertório baseado no Camembert Electrique, disco de 71 do Gong.
A Bolha
Daevid Allen
Largo do Arouche
Há anos um dos palcos mais clássicos da Virada, o espaço do Arouche é dedicado às músicas populares do Brasil, numa definição que vai do “brega” das rádios AM dos anos 70 aos ritmos regionais. Em 2012 a Virada começa bem, com Guilherme Arantes (18h) desfiando seu cancioneiro paulistano, mas logo degringola com o pior dos anos 80 numa sequência que inclui Dalto (20h), Byafra (22h), Michael Sullivan (0h) e Rádio Táxi (2h). Depois do momento “filial da Trash 80s”, o nível baixa mais ainda com os Virgulóides (não ri, pode conferir no site oficial) às 4h, seguido pelo Bloco do Sargento Pimenta misturando ritmos brasileiros e Beatles (parabéns pela ideia original, pessoal), às 6h. Às 10h é o momento da petizada, com Daniel Azulay. Tinoco, um dos nomes mais importantes da música brasileira, que cantaria às 13h, morreu nesta sexta (4) aos 91 anos. A organização ainda não anunciou se haverá alguma substituição. O paraense Pinduca sobe ao palco às 15h e fechando com a conexão Mississpi x Capibaribe com os guitarreiros Robertinho de Recife e Jesse Robinson às 17h.
Guilherme Arantes
Daniel Azulay
Pinduca
Robertinho de Recife
Jesse Robinson
Teatro Municipal
O palco mais bonito e inacessível do centro vai continuar inacessível – não por elitismo, mas por causa dos ingressos antecipados (gratuitos) esgotados. A não ser que você seja ultra-fã dos artistas que tocam no Municipal – uma bela escalação que vai de Arnaldo Baptista a Leci Brandão, passando por Ângela Maria e Cauby Peixoto – e tenha descolado os benditos bilhetes na semana passada.
Stand Up na praça da Sé
“Se quando o Racionais tocou na Sé a polícia desceu o cacete na galera, imagina com esse tipo de meliante no palco, hein?”. Somos capazes de apostar que, inevitavelmente, pelo menos uns cinco comediantes em pé vão fazer uma “piada” parecida com essa durante a Virada. Evite, a não ser que você seja um masoquista cômico (tem fetiche pra tudo, pô).
Luta Livre – Sé / Tribunal de Justiça de SP
Taí uma forma de luta com regras mais claras do que as brigas que rolam do lado de dentro do tribunal. Dificilmente você é um fanático daqueles que sabe como vai o ranking da Brazilian Wrestling Federation, mas não tem problema. Pela nossa experiência, poucas coisas são tão legais na Virada quanto ver, muito louco, um gordão voando pra fora do ringue em cima da plateia.
Cabaret - Rua Araújo
Como a dança do poste tá na moda há alguns anos – já inventaram até o “pole dance urbano”, acredite – a Virada abriu espaço para um cabaré, que, pela programação, deve ser bem comportado, uma versão de carne-e-osso daquelas revistas que dizem que mostram mulheres peladas mas que não mostram mulheres peladas. Ainda assim a perspectiva de ver algum peitinho pode atrair: 1- tarados, 2 – “interessados em arte erótica”. Assim como a luta livre e o samba, é uma atração que favorece os nômades que não se fixam em nenhum palco, que é nosso jeito favorito de curtir a Virada.
30 anos sem Elis – Bulevar São João
Curte necrofilia musical? Então esse é o seu palco. Boa sorte.
Saraus - Largo São Bento
Além de reunir vários dos saraus que agitam a poesia periférica das quebradas de São Paulo, o espaço dedicado a eles na São Bento ainda vai contar com o ZAP (Zona Autônoma da Palavra), que vai abrir o microfone para quem quiser se expressar às 4h. Ou seja, é o lugar perfeito para você chegar bem tchuco e soltar a verborragia, naquela falta de noção deslavada que só o álcool pode proporcionar. Além disso, o rap, que dialoga amplamente com a cultura de saraus, vai ter dois momentos na São Bento, com o Z’África Brasil às 18h e com o EnsaiAço (12h), evento criado por Ferréz que reúne MCs e DJs para debaterem sobre a carreira, cantarem e jogarem conversa fora.
Z'África Brasil
Baratos e Afins – Paissandu
Apadrinhado pela loja/selo de Luís Calanca, o palco da Baratos Afins é uma mistura tão estranha quanto o catálogo da gravadora. Começando com o rock tiozão da Baranga (18h) e do Cracker Blues (20h), passando pelo hard motoclube do Golpe de Estado (4h) e pelo heavy metal pioneiro do Salário Mínimo (6h), o palco só melhora no domingo, com os Jordans e seu surfe clássico instrumental às 10h e a psicodelia Zona Leste do Skywalkers às 12h. O pós-punk paulistano dá o ar da graça no fim da jornada com as Mercenárias (16h) e Paulo Barnabé e Patife Band (18h).
The Jordans
Os Skywalkers
Mercenárias
Patife Band
24 de maio – Arte Corporal
O mais perto que você vai chegar de um mamífero vivo pendurado por um gancho em um lugar que não seja um matadouro. Se você gostou de ler sobre isso, vai gostar de ver também.
Minhocão – Chefs na Rua
Estamos torcendo para que o espaço, que vai contar com rangos entre R$ 5 e R$ 15 assinados por chefs com Alex Atala, Rodrigo Oliveira, Checho Gonzáles e Renato Carioni role com tranquilidade e que se torne algo permanente na Virada. Pode parecer que não, mas a gente curte comida boa – mais ainda se ela for barata.
Barão de Piracicaba – Pista Black
Ali pela Cracolândia vai rolar uma pista com outro tanto de rap na Virada. Enquanto os DJs vão do pop ao soul, do underground ao funk, também rolam apresentações de MCs como Terra Preta (11h), Rhossi (ex-Pavilhão 9, 1h), e Tio Fresh (2h30). Para fechar a programação, o pioneiro Grand Master Ney justifica o epíteto a partir das 18h.
Terra Preta
Rhossi
Tio Fresh
Gusmões
Só a Virada Cultural para colocar no mesmo palco os picaretas do Cruz (21h) com o Olho Seco (6h), e um monte de punk xixi (mas não só) no meio. Se você tem carteirinha de sócio do Hangar 110, esse é o seu palco.
Olho Seco
Cásper Líbero (MTV)
Se você chegou até aqui nesse texto, já deve estar querendo um papo mais reto e com menos firulas, então vamos lá: só três shows prestam no palco da Eme-Tê-Vê. Ogi (21h), Projota (23h) e Periferia S.A. (2h30). O resto é resto.
Ogi
Projota
Periferia S.A.
Rua Mauá – Arena Soundsystem / Dino Bueno - Dubversão
Dub, pô: reverbs, caixas fantasmas, escaleta, amor por Jah e pela ganja. Se você gosta, vai curtir, se não gosta, não vai mudar a cabeça assim tão fácil.
Cine Windsor – Boca do Lixo
Destino certo para tirar um ronco, mandar uminha ou então analisar como surgiram aspectos originais de narrativa e linguagem cinematográfica dentro de um sub-gênero empobrecido financeiramente que cresceu num cenário de extrema repressão em um país de Terceiro Mundo. Recomendamos Bandido da Luz Vermelha para a terceira opção, Mulher Objeto para a segunda e o que estiver passando para a primeira.